Na crise, use as armas do ‘inimigo’ para se defender

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Especialistas ensinam como fugir de armadilhas que levam a excesso de gastos

RIO – Em tempos de crise e orçamentos apertados, os consumidores devem estar mais atentos às armadilhas do dia a dia, que podem levá-los para o caminho do descontrole financeiro e do endividamento. Comerciantes e empresas prestadoras de serviços costumam estudar cuidadosamente o comportamento de seus clientes e os gatilhos que os fazem abrir a carteira. Conhecer essas estratégias, dizem especialistas, torna o consumidor menos vulnerável, num cenário em que controlar gastos é palavra de ordem.

Liquidações, cartões de lojas, promoções nas prateleiras dos supermercados, crédito disponível a qualquer hora, parcelamentos longos e oferta de serviços promocionais de empresas de telefonia são alguns dos truques que fazem o consumidor ver vantagem — às vezes, onde não tem — e passar da conta.

— São muitas as estratégias do mercado para atrair os clientes. O que a pessoa precisa é ser ponderada e ver o que cabe no seu orçamento, impondo limites. O que não quer dizer que a pessoa tenha que se privar de tudo que lhe dá prazer. É fazer um planejamento e segui-lo. Sem radicalismos — orienta Samy Dana, PhD em Business e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Um bom exemplo de armadilha, segundo a professora e consultora de Psicologia Econômica e Educação Financeira Vera Rita de Mello Ferreira, são as liquidações. Com a ilusão de que está tudo mais barato, a pessoa acaba comprando uma quantidade maior, e não fazendo, de fato, nenhuma economia. No supermercado, quem decide levar só o que está marcado como promoção, sem pesquisar, ressalta Vera, não é raro, acaba por fazer escolhas erradas.

— Algumas pessoas ficam numa espécie de modo default, condicionada a só olhar os produtos em oferta. Sem, no entanto, na maioria das vezes, fazer economia. Acabam comprando demais ou sem pesquisar. Olhando só etiquetas de oferta, não se dão conta que na prateleira ao lado tem um produto similar mais barato. A função do comércio é apelar para conseguir conquistar o consumidor. Seja numa oferta ou numa opção de crédito com prestações a perder de vista — diz a consultora, que é integrante da rede internacional para educação financeira da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), indicada pelo Banco Central.

 

PROMOÇÃO NÃO É SINÔNIMO DE ECONOMIA

Dana, por sua vez, esclarece que os produtos em oferta e nos encartes são aqueles que o mercado tem mais interesse em vender, seja por oferecer maior margem de lucro ou por estarem com a validade por vencer, e não necessariamente os que têm melhor preço para o cliente.

Flávia Ávila, especialista em Economia Comportamental e coordenadora do MBA sobre o tema da ESPM, por sua vez, alerta que muitas compras não planejadas são feitas sob o efeito de pequenos estímulos do ambiente, que induzem as pessoas a agirem impulsivamente. A impulsividade é fortemente influenciada pelo contexto, e há várias estratégias que podem melhorar as nossas escolhas.

— Se eu sei que passear no shopping aumenta a chance de eu fazer uma compra impulsiva, posso, por exemplo, deixar o cartão de crédito no carro ou em casa. Isso atrasa a minha escolha e aumenta a chance de repensar se preciso mesmo comprar aquele produto naquele momento — orienta.

Vera Rita acrescenta que muita gente funciona colocando tudo no papel, fazendo uma planilha. Mas é preciso observar de forma realista o que está fazendo e não se iludir.

— A crise desgasta muito, esgota nossas capacidades. Por isso é interessante, sentar, com tranquilidade e fazer uma estratégia junto com a família, um ajudar o outro a apontar os furos no orçamento. Mas tudo isso pode desandar em briga, estresse, é um risco. Sempre digo que a família que aperta o cinto unida, permanece unida. Se todo mundo se der conta do tamanho da encrenca e mirar num objetivo comum, pode ajudar mais — afirma Vera, recomendando que após montada a estratégia, é importante ver se não há “’ralos” que possam colocar o planejamento a perder.

Um caderninho onde anota os gastos diariamente foi a solução encontrada por Ana Barros para fechar seus “ralos” de gastos. Compradora contumaz, ela decidiu mudar seus hábitos diante da crise.

— Quando vejo alguma coisa que eu gosto, não compro mais no impulso. Sempre dou uma volta, pesquiso em outros lugares e reflito sobre a necessidade. Outra estratégia importante foi reorganizar o armário e descobrir que tenho roupa suficiente. Continuo gostando de fazer compras, mas hoje sou muito mais seletiva, não resolvo uma frustração com um vestido. E se tenho uma tentação, consulto logo o caderninho para ver a quantas anda minha conta — diz Ana.

 

QUANTO MAIS FÁCIL O CRÉDITO, MAIS CARO

Há vários tipos de emoções que podem ser gatilho para compras: tristeza, ansiedade, impaciência, depressão, afirma a professora de Psicologia Econômica Vera Rita. Quando a pessoa está triste, por exemplo, diz, aceita comprar coisas por um valor mais alto do que aceitaria se estivesse em “seu estado normal”.

— Nessas horas, a melhor estratégia é ficar longe do shopping e dos sites, longe das tentações. Mais do que nunca, é preciso ter um equilíbrio entre o lado emocional e racional. O negócio é não chegar perto para não gastar o que não pode. Ou então é aquela velha história: ande com o dinheiro contado.

 

Fonte: http://oglobo.globo.com/economia/defesa-do-consumidor/na-crise-use-as-armas-do-inimigo-para-se-defender-20049199

 

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